Outros “Cristianos”

Encarte

Os veteranos Gino e Geno

 

 Chico Alves

Foto: Divulgação

Os internautas que manifestaram surpresa diante do tamanho da legião de fãs a lamentar a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo, em acidente automobilístico recente, ficariam surpresos se soubessem quantos ‘Cristianos’ mais existem no país. São dezenas de artistas do gênero, normalmente oriundos de São Paulo, Minas ou de estados do Centro-Oeste, cujas músicas não passam nem perto dos ouvidos de muitos moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro ou da Zona Sul de São Paulo. Ignorados por boa parte da elite carioca e paulista, vendem milhões de CDs e DVDs.

São cantores e compositores como Jorge e Mateus, que já bateram a marca de 5 milhões de CDs e DVDs vendidos. Eles se deram ao luxo de gravar, em 2013, show ao vivo no Royal Albert Hall, em Londres, mesmo palco onde se apresentaram Led Zepelin, todos os ex-Beatles, Oasis e muitas lendas da música. Outro bom exemplo é a dupla mineira Gino e Geno, que em 40 anos de carreira vendeu mais de 30 milhões de cópias sem praticamente ter dado as caras no Sudeste, à exceção de uma ou outra apresentação em São Paulo. Similares de sucesso parecido são os cantores Jads e Jadson, Zé Felipe, Thaeme e Thiago, Bruno e Barreto, e uma extensa lista.

Ser recordista de vendagem nada tem a ver com fazer boa música, é certo. Essa observação, no entanto, deveria ser feita também com relação a todos os gêneros musicais, e não lembrada apenas no caso dos sertanejos. Fora a interminável discussão sobre qualidade artística, os hits sertanejos são, no mínimo, bom entretenimento para seu público. Se as rádios do interior exageram ao entupir a programação com um só tipo de música, isso vale também para as rádios de Rio e São Paulo, que se revezam em dois ou três gêneros musicais.

O desconhecimento dos outros ‘Cristianos’ que embalam os shows de música sertaneja apenas revela a que distância as duas maiores capitais brasileiras estão do interior do Brasil – e não apenas geograficamente. Conhecer os gêneros musicais de outras regiões (obviamente, sem a obrigação de gostar deles) talvez seja uma providência saudável.

A polêmica em torno dos sertanejos ignorados na “cidade grande” nada tem a ver com gosto musical inferior ou a proliferação dos livros de colorir, como comentou há tempos o apresentador Zeca Camargo. Tem a ver com diversidade. Cada um gosta da música com a qual se identifica. Julgar e emitir conceito pejorativo sobre alguém por isso é uma simplificação enganosa.

Algo reducionista como: se gosta de Nina Simone ou Deep Purple, é uma pessoa legal; se curte Wesley Safadão ou Luan Santana, é um imbecil. A natureza humana não pode ser reduzida a uma equação tão simplória. Melhor assim.

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