O mundo sórdido de “Verdades Secretas”

Verdades

 

Chico Alves


Roteiro ousado, direção primorosa, bons diálogos, excelentes interpretações e fotografia inspirada. Todas essas qualidades têm dado à novela das onze da TV Globo, “Verdades Secretas”, bons índices de audiência. Entre tantos pontos positivos, porém, é preciso destacar um extremamente negativo: a falta de equilíbrio.  Decidido a mergulhar no submundo das agências de modelo e o ambiente de super luxo que as cerca, o autor Walcyr Carrasco exagerou. Entre os personagens principais, não há um sequer que tenha vida minimamente prosaica, trivial. Todos são decadentes, caóticos, sem escrúpulos. Para piorar, chantagens entre pais e filhos, estupros, uso pesado de drogas e outras violências são mostradas com um hiper-realismo digno do cinema americano.

O autor consegue a proeza de surpreender a cada capítulo e boa parte dos telespectadores segue diariamente a novela atraída por sua coragem. Querem saber até onde Walcyr e a Globo são capazes de ir. Quebrar essas barreiras televisivas seria algo bastante saudável se o mundo de “Verdades Secretas” não fosse tão over. Não existe ali ninguém que tome sua cervejinha, que pare para jogar bola, que tenha um romance equilibrado. Todos parecem à beira do precipício.

Mesmo o autor especialista nas perversões humanas, Nelson Rodrigues, temperava suas histórias com humor, com momentos corriqueiros, com simpáticas banalidades. A vida como ela é, enfim: boa e má. Os personagens da novela global não dão espaço para bondades, parecem dar razão àqueles comentários geralmente feitos por taxistas ou por rancorosos frequentadores de filas de banco: “Ninguém presta nesse mundo”.

Num momento em que a vida real anda tão pesada, obras de ficção assim podem ter sobre alguns telespectadores o efeito de aprofundar a desesperança. É claro que a liberdade do autor  tem que ser total e o criador não deve se limitar por esses parâmetros. Não está, porém, livre de críticas. Mesmo sendo sucesso no Ibope.

Verdades 3

Rodrigo Lombardi interpreta o protagonista, Alex

 

A GALERIA DE PERSONAGENS CAÓTICOS

Angel – A protagonista se prostituiu por um bom tempo e depois passou a namorar o homem que está casado com sua mãe.

Alex – Empresário rico, usa o dinheiro para conseguir o que quer. Pai ausente. Nos últimos tempos, trai a mulher com a própria enteada.

Carolina – É a tal que é vítima, dentro da própria casa, da traição do marido com a filha.

Giovanna – É filha de Alex. Tem um jeitão arrogante e também gosta de usar o dinheiro para chega ronde quer. Para conseguir seus objetivos, também trabalhou como prostituta de luxo. Detesta pobre e adora praticar bullying. Trama para estragar a vida amorosa do próprio pai.

Larissa – Modelo que se prostituiu e, viciada em crack, acabou na sarjeta. Numa das últimas cenas, cheia de realismo, foi vítima de estupro coletivo.

Verdades 4

Marieta Severo vive a personagem Fanny

Fanny – É cafetina de luxo e o próprio namorado, muitos anos mais novo, só está com ela em troca de dinheiro.

Visky – Personagem homossexual que é o braço direito de Fanny. Atualmente tem caso com uma mulher e vive dilema, tentando se afirmar a todo tempo como gay.

Anthony – Trabalha na agência e é garoto de programa. Tem relação homossexual com um estilista muito mais velho e podre de rico.

Guilherme – Apaixonado por Angel, se uniu a Giovanna para estragar o romance dela com Alex.

Stephanie – Mais uma garota de programa.

Pia – Mulher rica e consumista que não consegue controlar os filhos. Dá mais atenção ao namorado personal  trainer que a eles.

Bruno – Filho de Pia e Alex, é viciado em drogas pesadas. Protagonizou várias cenas em que aparece completamente drogado. Numa delas, teve overdose.

Roy – Modelo que teve problemas com drogas no passado e chegou a morar na rua. Ao conhecer Larissa, os dois se envolvem e se afundam cada vez mais no consumo de crack.

Lyris – Modelo da agência de Fanny que em um dos últimos capítulos foi morta a facadas.

 

 

2 respostas
  1. jordison
    jordison says:

    No caso particular na novela verdades secretas a festa de Giovanna com universitários em que o álcool é consumido à larga, a justificativa está no fato de uma mulher ter bebido mais do que devia, é a senha para que qualquer boçal se aproveite dela? Pois foi isso que o Guilherme fez com a Angel. Se o cara precisa embebedar, sedar ou drogar a mulher pra fazer sexo com ela ou usar a força física ou acuação é estupro sim!
    Veja no link https://www.youtube.com/watch?v=loAUZhwizmE
    Quem bebe demais fica com o julgamento comprometido e mais exposto a acidentes e comportamentos violentos.
    E a Novela Verdades Secretas mostrou que o Brasil tolera e incentiva o estupro a ponto de podermos afirmar que o crime faz parte da nossa cultura.
    e agora mostrou isso na Mini Serie “Ligações Perigosas” na cena https://www.youtube.com/watch?v=Jlr6iDd6bFQ.
    Por meio da culpabilização da vítima, estimulamos que as mulheres estupradas se escondam e acabem protegendo seus algozes. Afinal, é comum elas ouvirem de policias e da própria família que estavam embriagadas, usavam roupas curtas e apertadas, que andavam sozinhas à noite ou não deixaram claro que não desejavam o ato sexual. A vítima, portanto, sente medo e vergonha de denunciar.
    O retrato de uma sociedade machista, que pressupõe que a vítima é sempre a culpada estão ali silenciosamente presentes, o medo que a mãe sente em ter uma filha ‘mal-falada’, a sentença do juiz na condenação do agressor, a impotência da família diante das acusações de que poderia ter sido evitado, as insinuações a respeito da moral da criança, todos esses elementos estão ali presentes, impiedosamente mostrando como os costumes deturpados da sociedade induzem erroneamente ao cumprimento da justiça, que muitas vezes além de tardar, falha.
    A sexualização da mulher como objeto é outro fator que estimula o alto número de casos. Desde crianças aprendemos que o corpo da mulher é um objeto que pode ser consumido como qualquer outro. O menino cresce acreditando nisso e, o pior, a menina também.
    O estupro tornou-se, portanto, tão banal que passou a ser aceito e tolerado.
    É preciso que fique claro: nenhuma mulher merece ser estuprada. Ela é dona do seu corpo e a única que pode dele dispor. E a culpa nunca é da vítima, independentemente da sua conduta. Esses são pressupostos básicos para que o crime de estupro deixe de ser parte da nossa cultura.
    E nada justifica um crime desses.. quem propõe um argumento como desse tipo tem o caráter no mínimo duvidoso…

    Responder

Deixe uma resposta

Quer participar da discussão?
Fique a vontade para contribuir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *