A Mangueira não pode ser o museu do samba

Manga 1

Chico Alves

Das escolas de samba tradicionais do Rio, talvez a Mangueira fosse a que mais necessitava de um título na Sapucaí. O posto de referência entre os sambistas, de propagadora da tradição, estava seriamente ameaçado por vários anos seguidos de abandono.  Nos últimos tempos, a Mangueira não era mais que uma lembrança do passado, que vez ou outra, nas feijoadas e nos ensaios, reunia gente saudosista para lembrar como a Verde e Rosa tinha sido importante para o samba.

Bem diferente da Portela que, mesmo há mais tempo sem ganhar um Carnaval, soube expor e valorizar seus baluartes. São muitas as iniciativas que valorizam a escola de Oswaldo Cruz: o Trem do Samba, o Timoneiros, vários documentários sobre a tradição portelense, a feijoada da Tia Surica (com atrações de peso), a Velha Guarda a todo vapor.  Enquanto isso, a Mangueira dormia.

Mesmo antes do jejum de títulos, as coisas já não andavam bem nos arredores do Buraco Quente. Numa entrevista que fiz em 2002 com Dona Zica, um ano antes de sua morte, ela reclamava de como o samba andava com cotação baixa entre os jovens do lugar. “Os garotos não querem mais saber de samba, meu filho, não querem mais saber da gente. Uns, por causa do funk, outros porque viraram crentes”, lamentava.

Depois disso, uma sucessão de barbeiragens dos presidentes da escola fez a Mangueira cair tanto e se apresentar de um jeito tão pobre na Sapucaí  que lembro seus componentes se perguntando: “Será que esse ano vai cair?” O campeão de sandices foi, sem dúvida, Ivo Meireles, que brigou com parte da Velha Guarda, deixou dívidas astronômicas e teve administração marcada por vários outros problemas.

Agora, isso é passado. A Mangueira é campeã.

Mas é preciso que esse título ajude a dar maior visibilidade para o que a escola tem. Com a exceção de Tantinho, qual outra grande estrela a  brilhar nos encontros do samba de quadra? As tias e tios da velha Guarda, onde se apresentam? Onde estão os novos valores mangueirenses? Não é que não existam. Simplesmente não aparecem.

Que esse sabor de vitória, que há tanto tempo a escola de Cartola não sentia, sirva para reavivar a tradição e adubar novos talentos. Afinal, a Mangueira é como o próprio samba: agoniza, mas não morre.

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