França

França deixou sua marca

França

 

França, foi o livreiro que passou anos e anos vendendo os clássicos e as novidades da literatura nas redações. Tinha o preço mais em conta, parcelava a compra e aceitava pré-datado (nessa época ainda se usava cheques pré-datados). Mas motivava mesmo os colegas a comprar pela sua simpatia, aquele jeitão que misturava fidalguia e simplicidade e o carinho que demonstrava pelos livros. Ele sabia o que os obras continham e conhecia alguns dos autores, contava causos sobre eles. Devo muito do pouco que li ao França.

Se é verdade que o sujeito vale pela marca que deixa no mundo, vejo, pelas manifestações emocionadas dos colegas diante da dele, que França foi mesmo um grande cara.

granada

Temer pode explodir a si mesmo

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Chico Alves

Assim como os terroristas suicidas que amedrontam o mundo, Michel Temer carrega consigo a bomba que pode, além de detonar tudo à sua volta, explodir a si mesmo. São as pautas de “reformas” que seu governo definiu como prioridade. A cada pronunciamento seu ou de um ministro, a população reage com perplexidade. Pouco a pouco, os trabalhadores das periferias vão interpretando as tais reformas como arrocho, corte de verbas sociais, perda de direitos trabalhistas e dificuldade de acesso à aposentadoria. A perplexidade vai, gradativamente, se materializando em xingamentos. Nada pode ser mais explosivo que isso para Temer.

As dificuldades que o presidente enfrenta para fazer com que os parlamentares da base coloquem suas propostas em votação é uma prova disso. Mais preocupados em eleger a si próprios e a seus candidatos nas eleições municipais, os políticos aliados já disseram que o assunto não vai ser tratado agora, só em novembro. Nada de pautas impopulares nesse momento em que eles percorrem as ruas em busca de votos.

Do outro lado, figuras como o senador Aécio Neves e entidades como a Fiesp cobram do presidente “reformas” imediatas.  Pelo olhar dos tucanos, Temer foi colocado na presidência para fazer o trabalho sujo, para executar uma pauta impopular que deixaria o Estado mais enxuto e as contas mais ajustadas. Assim, um possível candidato vitorioso do PSDB em 2018 poderia encontrar um cenário financeiro favorável, sem ter que arcar com o ônus da impopularidade. Por isso, os tucanos querem mudar já. A Fiesp, por sua vez, também enxerga nesse momento uma possibilidade única de rever muitas leis que oneram os empresários, mesmo que essas mudanças custem o bem-estar dos trabalhadores. Também querem mudar já.

Acuado entre os políticos da base em plena campanha, que não querem ficar ainda mais mal vistos pela população, e os tucanos aliados à Fiesp, Temer tenta se mexer.

A situação para ele pode realmente se complicar quando os manifestantes que começam a encher as ruas agregarem aos gritos de “Fora, Temer” e “golpista”, palavras de ordem que reforcem a ideia de que o presidente atual quer arrochar ainda mais os trabalhadores, já em péssima situação. Para quem tem cerca de 90% de impopularidade, como mostra a pesquisa do Ibope, isso pode ser como tirar o pino de uma granada política. E quem fez questão de botar a mão neste artefato na mão foi o próprio Temer.

 

 

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Rafaela Silva não me representa

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Mulher, negra, moradora da favela, Rafaela Silva, a medalhista olímpica, é a única responsável pela sua vitória. Talvez possa dividir o mérito com seus pais, amigos e treinadores do Instituto Reação. Talvez possa agradecer a alguma ajuda de bolsas do governo federal e o dinheiro que seu treinador investiu para mantê-la no tatame. Mas a disposição para enfrentar o treinamento pesado, a superação depois das derrotas, o enfrentamento dos  xingamentos racistas, vivendo numa realidade tão hostil, tudo isso é mérito exclusivo dela.

É bonito que ao menos nesse momento os brasileiros vibrem com Rafaela. Mas o certo é que, passada a Olimpíada, a campeã olímpica e várias outras tão boas quanto ela e que não conseguiram medalha voltarão ao esquecimento em que vivem na Cidade de Deus e em outras favelas do país.

Como a maioria dos brasileiros, faço pouco para ajudar essas ‘Rafaelas’ que existem por aí. Espero que a medalha de ouro ajude a chamar atenção para as dificuldades de todas elas, que ajude a mobilizar a sociedade por essa lutadoras. Tenho, porém, pouca esperança de que isso aconteça.

Vibro muito por Rafaela. Mas a verdade é que, nessa vitória, a brava judoca da Cidade de Deus representa mesmo é a si própria.

Bandeira Branca

De volta

Bandeira BrancaChico Alves

O site interrompeu suas postagens há cerca de quatro meses, por achar infértil o debate em momento de Fla x Flu político, com discussões em que os dois lados não se ouviam. A agressividade dos comentários a cada postagem que tratava de política me deixou perplexo. Achei melhor parar.

O clima está longe de ser tranquilo, mas talvez agora seja possível tratar de alguns temas de forma mais serena.

Vamos tentar de novo.

 

 

 

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Bete Mendes venceu Ustra

 

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Chico Alves

Nesta quinta fui ao Imperator para aplaudir Nelson Sargento, Pedro Miranda e conjunto Galo Preto. Show delicioso. Nelson com humor afiado, Pedro com a simpatia e o talento de sempre e o Galo Preto dando um banho. O encerramento perfeito para uma noite de feriado. Termina o show e, depois do bis, Pedrinho pede aplausos para a mulher dona da voz que, ao início do espetáculo, narrou um resumo da biografia de Nelson. Era Bete Mendes.

Ela mesma: a atriz que foi torturada por Brilhante Ustra, em 1970. Bete apareceu à beira do palco, sob as homenagens da plateia. De longe, eu a observava e pensava: o que deve estar sentindo essa mulher, torturada por esse animal, vendo agora Ustra ser louvado  em rede nacional de TV, em pleno Congresso Nacional? Deu vontade de ir até ela, abraçá-la e pedir desculpas por essa indignidade. Mas fiquei com um  nó na garganta e não fiz nada. Fiquei apenas ali, olhando para Bete.

“A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. Não quero mais falar sobre esse assunto (…) Superei isso com tratamento psicológico e com trabalho. Agradeço à família, aos amigos e à classe artística, que foram meus alicerces”, disse ela, em uma entrevista à Folha, em 2013.

Mesmo não indo ao encontro de Bete, na quinta-feira, estava perto o bastante para ver e ouvir quando ela abraçou uma amiga na plateia . “Que show lindo! Emocionante!”, disse, sorridente.  Apesar de tudo, parecia leve. Seria bom que Ustra, nas profundezas do inferno, e seus admiradores que estão entre nós, soubessem disso:  Bete sobreviveu. E bem.

 

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As bizarrices do Congresso, o eleitor e a esquerda

 

Brasília - Termina sessão que autorizou processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados ( Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Chico Alves

O Congresso Nacional é como a emergência de um hospital público. Toda vez que somos obrigados a olhar com mais atenção para o que acontece por lá, ficamos de estômago embrulhado. Por isso, a maior parte do tempo fingimos que aquele lugar não existe, escolhemos esquecer de como aquilo realmente é.
 
A verdade é que não há nada de exótico nos parlamentares que estão na Câmara, seus discursos na votação do impeachment foram os mesmos que costumam fazer diariamente, sem que nos interessemos por eles.
 
A maior parte do Congresso é formada por péssimos parlamentares e muitos colocam a “culpa” por essa aberração nas costas dos eleitores. Mas é bom pensar duas vezes.
 
Afinal, qual alternativa a esquerda deu aos eleitores mais pobres, aqueles que vivem em áreas mais longínquas da cidade e do país? Quem, da esquerda, convive e ouve os problemas dos moradores de Japeri (RJ) ou de Santarém (PA). Afora alguns poucos abnegados, não há uma ação organizada, não só para conquistar os votos, mas também para discutir política com o povo desses lugares.
 
Nos últimos anos, a esquerda apenas quis falar em nome do povão, em vez de dialogar com ele. Quis ficar acima e não ao lado. Foi a esses recantos apenas esporadicamente, para uma roda de conversa aqui ou ali, quase sempre com seus conceitos formados, sem disposição para aprender. Nada de construção cotidiana. O último a fazer isso foi o PT, na década de 80. Mas o PT, sabemos o que se tornou…
 
Quando o Partido dos Trabalhadores virou um monstro, parte da esquerda passou a criticá-lo, com razão. Mas não conseguiu construir uma alternativa. Não chegou nem perto disso.
 
Pois bem: se os eleitores dos rincões só têm políticos conservadores a acompanhar seu dia-a-dia, como culpá-los por votar nos parlamentares que estão aí? Se é que existe culpa (palavrinha danada, essa), ninguém precisa pegar uma estrada rumo ao interior para encontrá-la. Ela está por aqui mesmo, nas capitais.
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Os funkeiros contra o impeachment

Chico Alves

O Fla X Flu de manifestações pró e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff deve ganhar um novo ingrediente neste domingo, dia em que o plenário da Cãmara provavelmente votará o assunto. No último sábado, do alto do palco de um de seus bailes, Rômulo Costa, o dono da equipe Furacão 2000, conclamou os funkeiros a “invadirem” a praia de Copacabana, para se posicionar contra a saída da presidente.

“Domingo que vem, nós vamos fazer a maior manifestação que o Brasil já viu, nós vamos invadir Copacabana , Ipanema, Leblon. As pessoas que não gostam do pobre estão aqui para sacanear a gente, então é Dilma, é Lula” .

Ele diz para as pessoas levarem sunga e biquini e afirma que ninguém vai pagar ônibus, metrô ou trem.

Como, até agora, tanto as manifestações pró quanto as contra o impeachment não conseguiram mobilizar a parcela mais pobre da população, esse será um componente novo e que merece observação atenta.

 

 

 

A melancolia de Tarso Genro

Chico Alves

Em tom sereno, como de costume, Tarso Genro deu entrevista a Roberto D’ávila na Globo News. O papo rendeu algumas revelações dos bastidores petistas. O ex-governador criticou a gestão de Dilma Rousseff por construir o isolamento que tantos dissabores tem custado ao governo. Não delegou poderes nunca, em nenhum momento os ministros se sentiram à vontade para falar em seu nome, lamentou Tarso. Por outro lado, afastou-se da base aliada, não conversava com o Congresso.

“Há um ano alertei que o PMDB estava saindo do governo, que estava planejando candidatura própria. Por isso, fui criticado dentro do PT, como se quisesse criar uma dissidência”, comentou.

Critica a tentativa de impeachment, a concentração da mídia e a tentativa de popularizar a ideia de que o PT é o partido mais corrupto do Brasil.

Ele diz que a experiência do Partido dos Trabalhadores não pode ser jogada fora e que a legenda deve participar de um esforço de reorganização da esquerda, “mesmo que não seja hegemônico”. Diz que participará desse esforço, mesmo que no futuro não esteja sob uma legenda identificada pelas duas letrinhas, PT.

Para além da fala de Tarso Genro, o que mais chama atenção  em sua entrevista é a expressão melancólica e o olhar um tanto triste de um homem que viu a decadência do partido no qual depositou tanta esperança de mudança do país. O ex-governador é um homem de bem. Talvez um tanto ingênuo, mas muito bem intencionado. A tristeza no olhar desse político representa o sentimento de muitos que ajudaram a construir o PT e, mesmo decepcionados com o governo e com a legenda, saem às ruas para defender que Dilma cumpra seu mandato até o fim.

 

Está criada a advocacia neopentecostal

Chico Alves

O discurso feito por Janaína Paschoal, uma das signatárias do pedido de impeachment que corre na Câmara dos Deputados,  na USP, bomba nas redes sociais. É bom evitar, desde já, manifestações de misoginia e machismo que se tornaram comuns na internet. Janaína não é uma mulher “louca”, “surtada”. Ela usa o gestual e a entonação de uma pastora falando à sua igreja.

Não bastasse a mistura de religião e política que aumenta cada vez mais no país, agora vemos também a mistureba de religião e Educação, religião e História e agora… religião e Direito.

É preciso, urgentemente, mudar o rumo dessa prosa.

 

 

Ibsen Pinheiro faz as contas: “O impeachment não vai passar”

Chico Alves

Em meio à crise política que se arrasta há muitos meses, um turbilhão de entrevistas surgiu nas páginas dos jornais, nos rádios, nas TVs, na internet. A pluralidade é algo saudável, mas, diante de tantas versões contra e a favor sem análises qualificadas, o leitor corre o risco de terminar o texto ainda mais perdido do que quando começou. Por isso, este site tem sido econômico nas últimas semanas.

Porém, uma entrevista em especial mereceu atenção: o presidente do PMDB gaúcho, Ibsen Pinheiro falou ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Ele era o presidente da Câmara dos Deputados no impeachment de Fernando Collor, em 1992. Com essa experiência, ele fez uma comparação entre os dois processos de impedimento e marcou diferenças importantes entre os pedidos de impeachment de Collor e Dilma. “Hoje falta a unanimidade daquela época”, diz ele. Outra diferença: O PT não é o PRB, que era inexpressivo. A legenda de Dilma tem base social e representatividade, segundo ele.

O mais importante, porém, é a correção que Ibsen faz nas contas de quem tenta prever quantos deputados votarão contra e a favor da saída de Dilma. “A presidente diz que terá os 172 votos necessários… O governo não precisa de 172 votos. Porque estarão a favor do governo os votos contra o impeachment, os votos de abstenção e as ausências”, explica “Na conta que todo mundo faz, o governo precisa ter os 172 votos. Não precisa. Se for 341 a zero, o impeachment não passou. A ausência é posição contra o impeachment. Tem que somar o voto ‘não’ à ausência e à abstenção”.

É por isso que Ibsen Pinheiro, apesar de ser a favor da saída do PMDB do governo, acha que Dilma ganha a parada: “A votação vai ser apertada, mas o impeachment não vai passar”.

Leia a íntegra da entrevista no site do Estadão, clicando aqui.